“Quero vencer o alcoolismo para minha filha ter orgulho de mim”, conta pai internado há 5 meses

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O homem sentado à minha frente tem uma doença que afasta da família e faz perder emprego. Ele é um dos 11 milhões e 700 mil alcoólatras no Brasil, segundo pesquisa do governo federal. Está internado há cinco meses, por alcoolismo, no Instituto Casa Dia São Paulo, no Jardim Anália Franco, Zona Leste de São Paulo. Mas antes de chegar no fundo do poço, ele foi o mais inteligente dos 10 irmãos; aos 18 “ganhava bem no emprego” e aos 22 , casou com professora e não deixava faltar nada em casa. “Conheci minha namorada bebendo. Quando eu me casei, teve bebida na festa. Todo mundo sabia que eu bebia.” Por solicitação da família e da clínica, não posso divulgar o nome do entrevistado. Os irmãos e a esposa não entendem sua doença. Como a maioria dos brasileiros.

No seu rosto, angústia e medo dessa dependência que causa vontade incontrolável de beber e sempre aumentando as doses. “No começo, era cerveja importada e uísque da melhor qualidade. Depois, cachaça. E no fim, o corote com pinga mais forte, o crack da bebida alcoólica. Quando vinha a vontade, enquanto eu não bebia tinha tremores, sudorese e ansiedade. Ficava com ressaca no dia seguinte, inchaço, irritabilidade, desconfiança, sono alterado e depressão.

Envergonhado, o homem de 1m92, 80 quilos e 40 anos, declara: “Meu maior medo é uma dose de bebida alcoólica.” Foi por causa da bebida que ele ficou na miséria e chegou a ” catar nas ruas latinhas no lixo para comprar o corote.”. AInda há muito preconceito pela . falta de informação à população sobre o alcoolismo, apesar de “grave problema de saúde pública mas ainda subdiagnosticado no Brasil”, advertem os psiquiatras Ronaldo Laranjeira, Alexandra Diehl e Daniel Cordeiro no livro “Dependência Química.

AOS 40 ANOS, UM SONHO!

.”Quero vencer o alcoolismo para minha filha ter orgulho de mim! Aqui,na Casa Dia, estou sendo incentivado a voltar a estudar porque as exigências das empresas está totalmente diferente. Eu quero fazer cursos, enfrentar desafios e vencer obstáculos. Eu vou devagar mas quero deixar meu legado,para minha filha passar a falar com orgulho do pai, que eu não fui, mas que pretendo ser. E somente sem bebida, vou conseguir. É o meu sonho! E que o Ivanildo José,meu terapeuta na Casa Dia está me ajudando a cultivar, com sucesso, todos os dias.”

APRENDENDO A MUDAR COMPORTAMENTOS

“No tratamento”, explica o Presidente da Casa Dia São Paulo, Ivanildo José, “ensino como funciona o cérebro e como mudar comportamentos que indicam a vontade de beber. A bebida alcoólica tem um poder de convencimento tão forte que faz acreditar que a vida só tem sentido se beber.” O grande desafio é explicar como a bebida, que tem produção e venda autorizadas pelo governo e chamada droga lícita, pode prejudicar. As pessoas bebem para socializar, comemorar e relaxar. O que a maioria desconhece é que por hereditariedade ou porque começaram a beber na adolescência , podem se tornar alcoólatras. Caso do entrevistado desta reportagem. “Eu tinha 14 anos. Minha família era muito festeira e nas festas sempre tinha bebida. Eu bebia, sem problemas, porque estava na companhia da minha família.” Bebida alcoólica é proibida no Brasil até os 18 anos. E documento da Sociedade Brasileira de Pediatria alerta: “Começar a beber na adolescência aumenta em quatro vezes a predisposição para desenvolver dependência de bebida alcoólica.”

O BAR PASSOU A SER MAIS IMPORTANTE QUE A FAMÍLIA

“Depois de casado, eu ficava no bar, quando voltava do trabalho. Minha filha de seis anos ficava sozinha em casa porque eu ficava no bar, enquanto minha mulher, que é professora, estava dando aulas. Começaram as brigas. Minha esposa foi embora com a minha filha.”

PERDEU A FAMÍLIA E EMPREGOS MAS NÃO ABANDONOU A BEBIDA

A esposa foi embora com a filha. Ele perdeu empregos porque não tinha mais rotina nem disciplina. Ficou sem dinheiro mas não abandonou a bebida alcoólica. Como em todos os casos de alcoolismo, sua doença foi aumentando.

DOENTE, SOZINHO, NA MISÉRIA, MAS SEM PARAR DE BEBER

“Passei a morar em lugares onde só dormia e tomava banho, pagos pela minha irmã. Durante todo esse período, procurei ajuda médica. Eles davam medicamento e me mandavam embora. Até que um dia eu caí debaixo do chuveiro e perdi a sensibilidade das duas pernas. Fui internado num

hospital público e me mandaram para a psiquiatria, onde me deram remédio e mandaram embora. Eu já tinha incontinência urinária, defecava nas calças mas ia me arrastando para comprar a bebida. Vendi minha cama e meu colchão. Dormia no chão. Até que um dia, eu não conseguia levantar. Estava escuro e fui levantar , não conseguia me apoiar na cadeira,

me apoiei na tevê e ela caiu em cima de mim. Eu pus a tevê no lugar e fui tomar a pinga que ainda tinha no corote. Eu já não tomava banho. Tava fraco, sem dinheiro, doente e já catando lixo.Foi quando procurei minha irmã e pedi ajuda.Esta é a minha primeira internação.”

SALVO PELA IRMÃ

Ao pagar a primeira internação, a irmã salvou sua vida. Porque a maioria das histórias de alcoólatras, pela falta de informações sobre a doença e falta de locais para internação e tratamento, acaba em cracolândias ou em cemitérios.

Depressão, perda de emprego e tentativas de suicídio, consequências do alcoolismo

Os números dessa doença, divulgados pelo governo federal, são de 2012, ano da última pesquisa realizada no Brasil , o 2° Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) da Universidade Federal de São Paulo, que mostra os graves riscos de se tomar bebida alcoólica:

  • 8%, o que equivale a 7 milhões de pessoas, admitiram na pesquisa já ter sido prejudicado no trabalho;
  • 4,9%, ou seja, 4 milhões e 600 mil, admitiram ter perdido o emprego devido ao consumo de bebida alcoólica;
  • 10%, ou seja, 6milhões e 600 mil pessoas, contaram que alguém se machucou em consequência do seu consumo de bebida alcoólica;
  • 9%, ou seja, 12 milhões e 400 mil pessoas, admitiram que a bebida alcoólica prejudicou seu casamento ou relacionamento.
  • Depressão e tentativas de suicídio também na lista dos graves riscos da bebida alcoólica.

O LENAD concluiu que “no Brasil, metade da população é abstêmia, 32% consomem quantidades nocivas de álcool. E mais grave ainda: 11 milhões e 700 mil brasileiros são abusadores ou dependentes de bebidas alcoólicas”.