“Quero superar o meu alcoolismo. E,aos 67 anos, recomeçar”

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Foi uma despedida sem abraços. A esposa não acompanhou o marido ao portão da casa. Nem os dois filhos. Ele não lembra o dia, mas o mês nunca mais sairá de sua memória:fevereiro de 2019, data que define como a da maior humilhação nos seus 67 anos. Por alcoolismo, foi expulso de casa.”Eu era um pai muito zeloso mas a bebida me levava a fazer loucuras. Aí a família não aguentou mais. E eu fui mandado embora de casa. A família sabe que é doença, mas não entende. Eles se magoaram tanto! E como diz um ditado: quem bate, esquece, mas quem apanha, não. Aos 67 anos, não tenho nada. Eu, que cheguei a receber 10 mil reais de salário, por mês, em fevereiro deste ano não tinha nem onde morar.” Nem os três irmãos ofereceram casa ou ajuda.

ESPERANÇA NUM ÚNICO ENDEREÇO

Para o paulistano de 67 anos, expulso de casa por alcoolismo, um único endereço era a sua esperança. Numa mala reuniu roupas e as poucas lembranças de toda uma vida. Segurando a mala com uma das mãos, chegou à casa amarela, ao lado de uma praça, entre árvores e prédios, no número 1501 da avenida Vereador Abel Ferreira, no Jardim Anália Franco, Zona Leste de São Paulo.Com o coração batendo forte, tocou a campainha. Foi reconhecido. E implorou por ajuda. Foi ouvido e acolhido. Iniciava em fevereiro deste ano sua segunda internação por alcoolismo no Instituto Casa Dia São Paulo, clínica onde foi internado, pela filha, em 2006. “Só voltei pra casa em 2011.Voltei a viver com minha esposa e meus filhos.Mas em 2018, tive uma recaída. Do nada, comecei a beber na rua. Em casa, nunca bebi.” Desta vez, pagaria com parte de sua aposentadoria. Avisou a família, mas “só um filho vem de vez em quando.”

IGUAL A 12 MILHÕES E 400 MIL BRASILEIROS

Assim, o paulistano de classe média, que a família pede que o nome não seja revelado, aumentava o número de brasileiros que admitem que a bebida alcoólica “já teve efeito prejudicial na família ou em relacionamento”. Como ele, outros 12 milhões e 400 mil brasileiros já enfrentavam as mesmas dificuldades, revela pesquisa utilizada pelo governo federal, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, publicado em 2012 pela Universidade Federal de São Paulo e pela Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas.

PACOTE ANTI-BEBIDA

O governo federal prepara nova pesquisa e já anunciou nesta segunda-feira, em reunião do Ministério da Saúde, Ministério da Justiça, Ministério da Cidadania, Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) que irá adotar cinco importantes medidas recomendadas pela Organização Pan-Americana de Saúde e pela Organização Mundial da Saúde:

  • Reforçar as restrições à disponibilidade de álcool;
  • Avançar e impor medidas para direção sob efeito do álcool;
  • Facilitar o acesso à triagem, intervenções breves e tratamento;
  • Aplicar proibições ou restrições abrangentes à publicidade, patrocínio e promoção de bebidas alcoólicas;
  • Aumentar os preços do álcool por meio de impostos e políticas de preços.

MÃE ALCOÓLATRA

Filho de mãe alcoólatra , internada várias vezes, ele não dava atenção quando ela implorava: ” Filho, para de beber, para de beber!”, ele lembra emocionado olhando pela janela da sala da Casa Dia. Ela morreu. Mas a doença continuou com o filho. “Bebida alcoólica é uma desgraça total. No começo era muita cerveja. Depois, conhaque, caipirinha, vodka, até chegar na pinga, que era mais baratinha.Quando meu filho vem me visitar eu digo pra ele o que a minha mãe me dizia: toma cuidado, eu sou seu espelho. Eu tenho um neto de 14 anos. E meu medo tremendo é de que um dia ele beba.”

No Instituto Casa Dia São Paulo, ele ajuda outros dependentes que estão iniciando a internação, leva para exames e para acertar documentação. E não perde a esperança. “Eu tenho fé, vou ter meu canto. Quero ser feliz. Carrego ainda angústia, solidão, mas aqui na Casa Dia a gente se diverte pra caramba, é o que nos salva. Como é bom que eu estou aqui. Estou bem aqui!”

Hoje, seu sonho é voltar a trabalhar. “Vou renovar o meu curso de habilitação para dirigir ambulância e recomeçar a vida. Não tenho mais nenhuma amizade, perdi o contato com aqueles com quem eu bebia. E, francamente, para ter os amigos de antigamente,que bebiam, prefiro não ter. Era só amizade de bar.”