A revolta de uma dependente de crack contra um salão de beleza

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A moça olha para o salão de beleza. E para na entrada. O que vê , faz reviver o passado. Um dia ela também cuidou dos cabelos, das unhas, vestiu roupas limpas e coloridas. E voltou para quem amava. E hoje? Veste roupas sujas, os pés estão descalços, os dedos queimados, os dentes arrebentados, uma vida devastada pelas pedras. Pedras de crack. Pelos espelhos , olhamos com preocupação para aquela moça doente, que continua entrando no salão. E o tamanho da distância dos mundos vem em suas duas únicas palavras: ‘Uma moeda! Uma moeda!” Está próxima ao caixa. A dona do salão se aproxima. E pede com educação, coragem e firmeza: “Por favor, vai embora.” E a moça obedece. Mas fica na porta. Anda de um lado para o outro. E, de repente, tira o casaco sujo e rasgado que veste, e atira, com ódio, para dentro do salão. E vai embora.

Aconteceu neste sábado à tarde, na Barão de Limeira, alameda com prédios residencias e comerciais, no centro de São Paulo.

Cracolândia , foto de Carlos Torres, no livro “Guerra pela vida -Á campanha da Jovem Pan contra as drogas”

Quem chegava ao salão, descrevia a moça, que continuava exigindo com raiva moedas nas calçadas da Barão de Limeira, endereço a algumas quadras da maior cracolândia do Brasil, a da Luz, no centro da cidade, onde ela divide espaço com outros milhares de dependentes também doentes abandonados nas ruas, escravos de drogas, colocando em risco suas vidas e a de terceiros na necessidade de ter como pagar os traficantes. Todos com uma doença que tira a capacidade de escolha mas que para a rede municipal de Saúde podem dizer se querem, ou não, tratamento. É que a Prefeitura adota a política de Redução de Danos, que significa “reduzir os riscos associados sem, necessariamente, intervir na oferta ou no consumo de droga”.

Prefeitura que também ignora a nova lei federal em vigor, a 13.840/2019 que autoriza agentes públicos e famílias pedirem ao psiquiatra a internação involuntária em hospital do SUS, quando o dependente já perdeu o controle de suas ações, colocando em risco sua vida e a de terceiros.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13840.htm

Portanto, lágrimas e sofrimento devastador no presente e no futuro de mães, pais, famílias de dependentes de drogas, como os desta moça dependente de crack, em São Paulo. Além dos riscos que já tiram dos moradores e comerciantes da Barão, o direito de ir, vir e trabalhar em segurança. Está na Constituição. Mas, direito que, cada vez mais, perdemos na cidade de São Paulo.

Um comentário em “A revolta de uma dependente de crack contra um salão de beleza

  • 15 de dezembro de 2019 em 18:08
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    Esse texto.me comoveu. Ele reflete a realidade nua e crua dos 3 lados dependentes, nós os que os tratam e ou amam, e os políticos!
    Quem sabe um dia os políticos percebam que sabemos dos interesses escusos que os movem. Temos que ficar atentos na hora de votar.

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