Presidente da Faces & Vozes da Recuperação faz resgate de adolescente dependente de crack, em favela de SP

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22h30 de terça-feira, 28 de janeiro de 2020- Começa o resgate de um dependente de crack numa favela de São Paulo. É um garoto de 15 anos, negro, analfabeto, extremamente magro pela fome e pelo crack e sem registro de nascimento ou qualquer outro documento. O grupo começa a entrar com medo de assalto ou tiroteio na favela Gato Preto, quase em frente ao Palácio das Convenções Anhembi, zona Norte da cidade.Noite de escuridão na rua estreita , ao lado de um córrego com cheiro que causa náuseas, e, do outro lado, dezenas de barracos de madeira , com único cômodo, sem banheiros.

De repente, o silêncio é quebrado por uma voz, que dá medo: “Quem são vocês? O que vocês querem?” Está tão escuro que é difícil até ver de onde veio a ordem. Mas lá está um homem alto, negro e magro, que decide quem entra e quem sai da favela. Nas mãos um celular, onde ordena o que os outros que estão traficando e monitorando o uso de drogas, devem fazer maquela favela da cidade, bem ao lado de uma das vias mais movimentadas de São Paulo, a Marginal Tietê.

No grupo, a mãe do rapaz que vai ser resgatado. Ela tem 30 anos mas aparenta 60 pelos sofrimentos que já enfrentou para criar sozinha os 10 filhos. “Cada um de um pai, que nunca ajudaram em nada, apesar dos 10 filhos morarem comigo.” Ela explica o que o grupo veio fazer na favela. Em seguida, o homem manda chamar o responsável pela equipe e faz as mesmas perguntas ,obtendo as mesmas respostas. E libera a entrada.

Alexandre Araujo, Presidente da Faces & Vozes

Morar não é bem a palavra para definir o que a equipe presenciou, quando a porta do barraco foi aberta pela mãe. “No chão de terra do estreito barraco,dez crianças e adolescentes num cômodo sem janela e no escuro”, conta o responsável pelo resgate, psicoterapeuta Alexandre Araujo, Presidente da ong Faces & Vozes da Recuperação: “ Era difícil entrar sem esbarrar naquelas crianças e adolescentes jogados no chão. A mãe chamou o garoto e ele saiu com a equipe sem nenhuma reação. Depois, a mãe se deitou ao lado dos filhos, no chão. Quem me procurou para o resgate foi um vizinho do prédio onde moro, no centro da cidade. Ele é dono de bar e conheceu o garoto , em frente à Praça Roosevelt, quando pedia, em bares e buscava no lixo, latinhas vazias para trocar por moedas. Esse meu vizinho conversou com o jovem, que pediu ajuda para tratamento contra a dependência de crack. Foi quando fui procurado aceitei o desafio de buscar esse menino para internação. Antes conheci a mãe, que implorou pelo tratamento do filho.

Quando a equipe saiu da escuridão, pode ver com atenção o garoto que nada falou até chegarem ao local da internação, o CRATOD, centro d e atendimento do Estado para dependentes de álcool e outras drogas, na região da Luz, no centro da capital. “A espera para atendimento foi de uma hora e meia. Ele está na enfermaria até aparecer uma vaga para sua transferência a uma clínica” , conta Alexandre Araujo, que antes de levar o garoto, tinha avisado a direção do Cratod.

“O drama é que, apesar de todo esse empenho para a internação, daqui um mês ,quando ele sair da clínica, não será mandado para uma comunidade terapêutica, onde pode, pela lei permanecer por até um ano para sua ressocialização e aprendizado de uma profissão, como determina a lei federal 13.840/2019″, lamenta Alexandre Araujo. “Ele vai é voltar para a favela do Gato Preto, onde se iniciou na droga, pela miséria, fome e violência.”

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