Internação involuntária não depende da vontade do dependente de droga, por ser doença que tira a capacidade de escolha

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Artigo do psiquiatra Pablo Miguel Roig, CRM 24968,Diretor da Clínica Greenwood, referência para especialistas no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos e na Espanha e Presidente do Conselho Editorial do Instituto Greenwood

A grande discussão no tratamento de dependentes químicos está baseada na efetividade dos tratamentos voluntários ou involuntários. Frequentemente as famílias devem apelar ao poder judiciário para poder tratar seus parentes em pleno projeto auto e hetero agressivo, como se a involuntariedade em tratamentos especializados fosse um impedimento para os pacientes realizarem livremente sua destruição ou a de outros. Existe uma tendência, orientada pelo projeto antimanicomial, que confunde a função de instituições, com programas complexos, que estão de acordo com a gravidade e variabilidade da patologia, com manicômios, que em sua maioria eram depósitos de pacientes psicóticos. As internações, tanto voluntarias como involuntárias, tem a função de apresentar ao paciente a possibilidade de ter uma vida melhor, não tóxica, que independe do desejo do paciente se tratar, pelo menos no início do processo de recuperação.

“O DIAGNÓSTICO DOS DEPENDENTES DEVE SER DE FORMA PRECISA, OBSERVANDO A CAPACIDADE DE SE MANTER EM ABSTINÊNCIA”

Para organizar o tratamento das adicções é necessário entender a doença, para que as intervenções sejam eficientes. Devemos considerar que os pacientes devem ser diagnosticados de forma precisa, já que os diferentes graus de gravidade podem nos orientar para indicar tratamentos ambulatoriais, grupos de ajuda mútua, hospital dia, lares protegidos, comunidades terapêuticas, hospitais psiquiátricos ou internações em instituições de alta complexidade. O diagnóstico deve ser amplo, já que as dependências químicas provocam um dano abrangente, que atinge os aspectos bio-psico-neuro- genético-socio-familiares. Para simplificar esta indicação, ela deverá observar a capacidade que possui o paciente de se manter em abstinência do fármaco, seja este legal ou ilegal e seus outros aspectos identificados no diagnóstico, para que o tratamento possa agir na compensação destas características do paciente. Vamos então entender nossos doentes.

“NO BRASIL, ATÉ CRIANÇAS JÁ EXPERIMENTAM DROGAS, QUE SÃO PROIBIDAS POR LEI FEDERAL”

Geralmente são indivíduos que começaram o uso das substâncias psicotóxicas em forma precoce. Basta olhar os estudos que identificam a idade de começo do contato. Na maioria das vezes são ainda crianças, que tem todo seu sistema neurobiológico seriamente prejudicado. Também são atingidos os recursos psicológicos, com prejuízo significativo na formação da personalidade, nos aspectos cognitivos e nos elementos defensivos para o manejo das emoções. Sabemos que em função de serem negadores e de famílias negadoras, chegam ao tratamento após anos de ter começado a doença, num processo progressivo da patologia que aponta a cronicidade. Não esqueçamos que o fármaco, por atuar geralmente no centro da recompensa e prejudicar a atividade cortical, transforma o adicto em um individuo que altera valores e prioridades e aumenta sua visão narcísica da existência, formando uma unidade impenetrável individuo-droga. Desta maneira a retirada do tóxico, como condição imprescindível para o bom funcionamento do tratamento vira uma tarefa muito difícil e que na maioria dos casos faz necessária a institucionalização do paciente.

“HÁ 13 NORMAS PARA O TRATAMENTO CORRETO DO DEPENDENTE DE DROGA, ENSINA O NIDA”

Em casos de certa gravidade, as clínicas de alta complexidade são a indicação mais precisa. Estas são bem definidas nas condições que o NIDA colocou nos seus 13 itens, que descrevem a extensão das equipes, a função delas, a importância da realização do tratamento pelo tempo necessário e a indiferença em relação à involuntariedade.

As consultas para com os profissionais desta área, geralmente são tardias e induzidas, já que os pacientes, pela negação deles e de sua família com respeito a sua patologia e a impossibilidade de imaginarem sua existência sem o alimento mágico, que fez parte de sua vida tóxica, postergam o contato especializado até que é impossível manter este esquema de vida. Outro inconveniente é o de que assim que se desintoxicam, começam a intentar interromper o tratamento e é esta característica que atrapalha o processo terapêutico, que não se baseia na desintoxicação e sim na reabilitação, projeto este que é bem mais longo e ambicioso.

A avaliação das instituições que se propõem a tratar adicções, deveria ser realizada pelo programa de tratamento e sua aplicabilidade para cada caso, dependendo do diagnóstico rigoroso e abrangente. A estrutura da instituição deve estar de acordo com a complexidade do caso e o conhecimento da patologia. As equipes multidisciplinares e de abordagem múltipla, que atuam pelo tempo necessário e não o predeterminado tem sido as de maior êxito.