“Machucado,ferido,sujo e muito debilitado.” Assim, Gabriele de Oliveira encontrava o irmão, dependente de droga, nas ruas, de madrugada

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“FALTA ABSOLUTAMENTE TUDO na Saúde Pública para socorrer e recuperar dependentes de droga”, protesta irmã que, há 17 anos, enfrenta com a mãe, no Rio Grande do Sul, a dependência do irmão. “Somos reféns dessa doença que acomete não apenas o adicto, como seus familiares”, declara ao Diário Antidrogas a advogada Gabriele Carolina de Oliveira. “A dedicação e a forma como minha mãe luta diariamente pelo tratamento do meu irmão, para salvá-lo , são provas de um amor incondicional. Sei que ela faz um esforço sobrenatural para ter forças pra lutar. Já vi minha mãe sofrer graves ameaças do meu irmão por causa da droga. E, mesmo assim, não desistir. Ela é um exemplo de força, de garra e de amor. ”

Gabriele faz uma pausa, recupera-se e, com coragem, prossegue:

“Cresci tendo que lidar com diversas situações que ninguém deveria jamais passar, vendo meu irmão ser agressivo com minha mãe, trocando todos os bens pessoais, se tornando escravo da droga. Já precisei sair de madrugada para pagar dívida de drogas, precisei juntar meu irmão da rua machucado, ferido, sujo e muito debilitado por diversas vezes. Passei a ter crise de ansiedade por não saber lidar com a situação. Os momentos importantes em minha vida, minhas conquistas, nunca foram comemorados em sua plenitude pois estávamos sempre apreensivos com a próxima recaída do meu irmão.”

Mãe de Gabriele, Maria Elisa Reich de Oliveira

“Pelo amor de Deus, me ajudem a salvar meu filho!”, implorou a senhora Maria Elisa no site da FEBRACI e no Diário Antidrogas, em 24 de setembro.“Sou professora aposentada e investi todas as minhas economias em 10 internações, psicólogos, psiquiatras, chá de Santo Daime e em Ibogaína, porque prometiam cura. Conheci Roberto Brunelli numa entrevista em que ele explicava como é a internação involuntária. Procurei a FEBRACI e pedi ajuda.”

http://diarioantidrogas.com.br/?s=me+ajudem+a+salvar+meu+filho

Renata e Roberto Brunelli, Presidente e fundador da FEBRACI

A resposta foi rápida. Fui procurada pelo administrador do Centro Terapêutico Despertar Jovem, Luiz Nazareno Ribeiro, que ofereceu vaga social.

Luiz Nazareno Ribeiro , que administra com a esposa Sandra Ribeiro ,o Centro Terapêutico Despertar Jovem, em Santa Catarina

Pedi que ligasse à Presidente da FEBRACI, Renata Brunelli, que estava acompanhando o caso. E o rapaz foi internado no Centro Terapêutico Despertar Jovem, em Imbituba, município do litoral de Santa Catarina.

Gabriele de Oliveira

GABRIELE descreve o irmão:

“A referência que tenho do meu irmão é de uma pessoa dedicada, estudiosa, extremamente vaidosa, carinhosa e amorosa com todos. A cada recaída dele, um pedacinho de quem ele realmente é se perdeu e, hoje, já não sei mais definir a pessoa que ele se tornou por ser escravo da droga.”

COMO ADVOGADA, Gabriele procurou a Justiça para conseguir ao irmão a internação involuntária,“porque as de 28 dias custeadas pelo Estado são em alas psiquiátricas,não há plano de tratamento, não há acompanhamento, os pacientes passam 28 dias dopados e depois são liberados para seus familiares. Ajuizei ações em diversas Comarcas, pedindo a internação involuntária, juntando todos os laudos, pareceres, boletins de ocorrência. Já demonstrei que as internações involuntárias de 28 dias não são efetivas mas mesmo assim não obtivemos decisão favorável, mesmo a saúde e a dignidade da pessoa humana ser um direito fundamental garantido pela Constituição e haver Leis específicas para tratamento da drogadição. Parece que precisamos implorar para que a Lei seja aplicada e mesmo assim não somos ouvidos”.

AOS POLÍTICOS, GABRIELE ALERTA:

“Essa doença afeta as famílias e pode destruir a vida de todos que convivem com o dependente. São necessárias, portanto,políticas públicas de combate à drogadição, destinação de verbas para tratamento e para capacitação dos profissionais de saúde, criação de clínicas para tratamento custeadas pelo estado e com infraestrutura necessária, suporte aos familiares que adoecem juntos.”

LEIA NA ÍNTEGRA A ENTREVISTA DA ADVOGADA GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA, 30 ANOS, DO RIO GRANDE DO SUL, AO DIÁRIO ANTIDROGAS, após a internação do irmão no Centro Terapêutico Despertar Jovem. Na foto com a mãe , a esperança da recuperação neste novo tratamento.

Senhora Maria Elisa com a filha Gabriele Carolina de Oliveira

DIÁRIO ANTIDROGAS-Quais foram as consequências em sua vida por seu irmão usar droga?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA – Meu irmão começou usar drogas quando eu tinha apenas 13 anos. Naquela época, o assunto drogas era um tabu em nossa cidade. Sofri muito preconceito, muitos amigos se afastaram pois a dependência não era vista como uma doença e sim como uma falta de caráter. Cresci tendo que lidar com diversas situações que ninguém deveria jamais passar, vendo meu irmão ser agressivo com minha mãe, trocando todos os bens pessoais, se tornando escravo da droga.Já precisei sair de madrugada pra pagar dívida de drogas, precisei juntar meu irmão da rua machucado, ferido, sujo e muito debilitado por diversas vezes. Passei a ter crise de ansiedade por não saber lidar com a situação. Os momentos importantes em minha vida, minhas conquistas, nunca foram comemorados em sua plenitude pois estávamos sempre apreensivos com a próxima recaída do meu irmão. Em minha formatura da graduação meus pais estavam apreensivos com meu irmão. Quando descobri minha gravidez foi no mesmo dia que conseguimos o deferimento judicial de uma internação. Durante minha gravidez, meu irmão ficou desaparecido por cerca de 10 dias e a última recaída dele foi na minha festa de 30 anos. Aprendi a viver com medo, com ansiedade.

“Cresci tendo que lidar com diversas situações que ninguém deveria jamais passar, vendo meu irmão ser agressivo com minha mãe, trocando todos os bens pessoais, se tornando escravo da droga.”

DIÁRIO ANTIDROGAS- Como você entende o que vem acontecendo com o seu irmão?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA – É muito difícil compreender o rumo que essa situação foi tomando. A referência que tenho do meu irmão é de uma pessoa dedicada, estudiosa, extremamente vaidosa, carinhosa e amorosa com todos. A cada recaída dele, um pedacinho de quem ele realmente é se perdeu e hoje, já não sei mais definir a pessoa que ele se tornou por ser escravo da droga. Sei que essa não é a vida que deseja, que ele não é feliz assim mas ao mesmo tempo não possui forças pra lutar contra isso. Cada nova recaída o quadro se agrava mais e parece que estamos lutando contra a correnteza, assistindo ele morrer lentamente e sendo impotentes diante disso. Sei que ele sonha com uma vida melhor e todos nós sonhamos com a chegada desse dia.

“Em cada nova recaída, o quadro se agrava mais e parece que estamos lutando contra a correnteza, assistindo ele morrer lentamente e sendo impotentes diante disso. “

DIÁRIO ANTIDROGAS -O que você acha que falta na rede pública para socorrer e recuperar doentes como o seu irmão?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA – Absolutamente tudo. Primeiramente profissionais habilitados pra lidar com essa doença. Compreender que a dependência é uma doença e ter a empatia de tratar o adicto e seus familiares com o mínimo de atenção necessária. Hoje, as pessoas ainda acreditam que a dependência é uma ‘falta de vergonha’, tratam os dependentes como marginais. Em segundo lugar, clínicas preparadas, tratamento adequado, política pública de combate a dependência, campanhas de conscientização. As internações custeadas pelo estado são pelo período máximo de 28 dias em alas psiquiátricas, não há plano de tratamento, não há acompanhamento, os pacientes passam 28 dias dopados e depois são liberados para seus familiares. A verdade é que os governantes não querem ser responsáveis por esse problema que é um problema social.

‘Governantes não querem ser responsáveis por esse problema social. “

DIÁRIO ANTIDROGAS -Sua mãe contou que foi à Justiça para conseguir internação involuntária. É fácil na sua cidade conseguir essa autorização?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA- Não é nenhum pouco fácil. Já ajuizei ação em diversas Comarcas pedindo a internação involuntária, juntando todos os laudos, pareceres, boletins de ocorrência. Já demonstrei que as internações involuntárias de 28 dias não são efetivas mas mesmo assim não obtivemos decisão favorável, mesmo a saúde e a dignidade da pessoa humana ser um direito fundamental garantido pela Constituição e haver Leis específicas para tratamento da drogadição. Parece que precisamos implorar para que a Lei seja aplicada e mesmo assim não somos ouvidos. Os governantes e órgãos públicos não querem destinar verbas para tratamento da dependência química pois essa não é uma parcela da população que lhes sejam interessante já que, em razão dos seus vícios de uso, vivem as margens da criminalidade.

“Não é nenhum pouco fácil conseguir internação involuntária para dependente de droga, mesmo com ação na Justiça.”

DIÁRIO ANTIDROGAS-Se você pudesse falar com políticos sobre as graves consequências da dependência de drogas, o que você pediria para se tornar realidade em sua cidade?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA – Explicaria para eles como essa doença afeta as famílias, o quanto ela pode destruir com a vida de todos que convivem com isso, pediria por políticas públicas de combate a drogadição, por destinação de verbas para tratamento e para capacitação dos profissionais de saúde, criação de clínicas para tratamento custeadas pelo estado e com infraestrutura necessária, suporte aos familiares que adoecem juntos.

DIÁRIO ANTIDROGAS – Como você define os sacrifícios ,que sua mãe tem superado, para manter seu irmão em tratamento?

GABRIELE CAROLINA DE OLIVEIRA – A dedicação e a forma como minha mãe luta diariamente pelo tratamento do meu irmão, para salvá-lo são provas de um amor incondicional. Sei que ela faz um esforço sobrenatural para ter forças pra lutar, já vi minha mãe sofrer graves ameaças do meu irmão por causa da droga e mesmo assim não desistir. Ela é um exemplo de força, de garra e de amor. Ela luta incansavelmente pelo filho e, se não puder ajudar ao meu irmão, ficará feliz em ajudar alguma família que passe pelo mesmo. Eu não consigo mensurar a dor que ela sinta ao ver seu filho se entregando pra droga, passando fome, dormindo na rua, morrendo lentamente e, ao buscar ajuda, ter todas as portas fechadas. Minha mãe é uma força da natureza, incansável na busca do tratamento do meu irmão e eu espero do fundo do meu coração que ela seja ouvida para que nossa família possa voltar a ser feliz, afinal são 17 anos de sofrimento, reféns dessa doença que acomete não apenas o adicto como seus familiares.

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